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quarta-feira, outubro 16, 2013

Denilson, o Bárbaro


Denilson é nome de craque. Foi com esse intuito que este Denilson chegou a Belém em 1992.


O início dos anos 90 foi uma época atribulada em termos estilísticos. Casacos verdes suficientemente largos para albergar um Walter, dois Miguéis Velosos e meio Ghilas conviviam sem aparentes sobressaltos com meias brancas e calças de ganga cor-de-rosa. O Manuel Luís Goucha passeava o seu masculiníssimo bigode e a Júlia Pinheiro ainda conseguia ser mais ou menos cool. Os cabelos podiam ir de um aglomerado de gel tipo Parker Lewis ao saudável e frondoso estilo pseudo-metaleiro, sendo que uma permanente ainda era largamente tolerada.


Porém, com aquela selva capilar salvaguardada por uma robusta monocelha, Denilson abusou. Não tiraram partido dele. E ele partiu ao fim de meia-dúzia de jogos, perante um balneário cheio de destroços de espelhos. Ninguém conseguiu passar-lhe um pente, quanto mais uma bola.


Como factos relevantes, assinale-se que Denilson fez corar Jaime Cerqueira, Fernando Couto ficou enjoado e a Isabel Queiroz do Vale questionou o exercício da sua profissão durante meses.


Denilson: bárbaro da cabeça aos pés, quer ao nível do jogo jogado como, sobretudo, da aparência física.

sexta-feira, setembro 20, 2013

Marlon, o Brandão.

“Eu era um cara alegre, sempre divertido p'ra cacete. Meu cabelo era sedoso e fazia o melhor feijão de Colatina. Não acredita, cara?”, indaga Marlon Brandão. 
“Depois tudo mudou. A culpa é daquele cara péssimo, o Bambo. Nossa, que cepo.”

Marlon caminha pensativo. A equipa de reportagem CDB foi encontrá-lo a passear junto ao mar, como ele sempre faz nos dias livres. “Gosto de vir aqui. Me dá a paz interior que preciso para dar graças a Deus e amar minha família. Para além disso gosto de lamber areia.”
Brandão deixou marca no futebol português  O diminuto brasileiro foi a gazua preferencial do Boavista da primeira metade dos anos 90.

"Sou um cara bonito."
“Eu era o palito que ia buscar aquele incómodo pedaço de almoço preso no molar bem la atrás  Quando os outros não conseguiam, era tempo de Marlon. O Marlon consegue. O Marlon vai buscar.”

Porém, Marlon teve que enfrentar algo que nunca julgou ser necessário: o inferno do roubo de identidade.
“Nossa! Lembro do momento como se fosse hoje. O Bambo estava dando cabeçada no poste – ele costumava fazer isso a meio dos treino. Fui ter com ele, dizendo que dez minutos de cabeçada era suficiente e que devia vir junto da galera, injectar substancias beber café para o balneário ”, afirma um nostálgico Marlon enquanto lambe um pouco de areia do calçadão.

“O Bambo se vira para mim e me diz que tinha visto um filme na noite anterior. Eu pensei: porra, se quisesse falar de filme com os colega, iria procurar um emprego para intelectual como tratador de animais ou cara dos computador. Mas ele insistiu. A película era “O Padrinho”: ‘Tem la um cara com seu nome. 'Cê foi roubado!’ – me disse ele. Ai eu flipei!”, grita inesperadamente Marlon, chamando a atenção dos transeuntes e envergonhando a discreta e bem-falante equipa de reportagem CDB.
“Esse cara actor estava roubando meu nome. Já sabia que os americano eram grandes torcedores de meu futebol, mas isso foi levar as coisa longe demais. Ainda por cima esse babaca nem conseguiu copiar o nome direito.”

Marlon Brandão senta-se num muro e leva a mão ao bolso, exibindo um molho de fotos de Marlon Brando. O brasileiro ignora convenientemente o sapinho morto que lhe caíra entretanto da algibeira, mas a astuta equipa de reportagem CDB não deixou passar esse triste facto. Fica a referência.
“'Cês estão vendo? E esse o cara. Nossa, ainda por cima era gordo. Que nojo.”, assevera o ressentido ex-axadrezado enquanto vai observando os já amarelados pictogramas. “De certeza que 'cês não o conhecem. Mas porra, esse infeliz tentou ser famoso aproveitando o reconhecimento mundial de meu nome. Isso não é bonito não", queixa-se o brasileiro.

“Eu fiquei bastante chateado na altura. Isso afectou meu jogo. Só pensava que esse cara americano estava tirando meu mérito, estava bebendo a gloria de meu suor. Cara, e bom beber suor, toda a gente sabe, não me interprete mal...mas esse babaca ficou famoso as custa de meu nome. E depois comecei pensando no pior.”, murmura um cabisbaixo Brandão enquanto bebe um golo de suor de cavalo do seu cantil personalizado. “Será que todo o tempo que ouvia todo o mundo falando meu nome, era desse gordo americano que estavam falando? Cara, os media, a TV, a radio...comecei pondo tudo em causa. Meu mundo desabou, né?...”
“Agora esse pensamento parece bobagem, bem sei. Todo o mundo sabe quem é eu, e claro que ninguém sabe quem era esse babaca. Mas por uns tempos pensei que pudesse ser ao contrário.”, afirma um sorridente Marlon Brandão, esperando pela anuência da nossa equipa de reportagem e consequente gargalhada colectiva.

Mas ninguém riu.

Marlon e o amigo Ricky de vacances.





















Ninguém riu.

segunda-feira, julho 15, 2013

Dantes



1989. Muita água correu debaixo do Vítor Pontes desde essa época.

Hoje, um mero anti-histamínico fora de contexto pode rasgar a carreira de um jogador em pedaços. Mas dantes era o tempo em que um futebolista que acusava cocaína num controlo anti-doping apanhava três meses de suspensão e depois ia estagiar com o seu clube ao estrangeiro no defeso seguinte, sorridente como se nada fosse. Falamos de Hernâni. E depois o desplante de apresentar aquela mancha tenebrosa nos sovacos sobre uma camisa de tonalidade rosa. Seria do nervoso miudinho? Pois, à falta de desodorizante, nada melhor que acender um cigarrinho para acalmar. Em resumo: um futebolista profissional a quem detectaram cocaína uns meses antes apresenta-se a suar alarvemente das axilas e põe-se a fumar, em pleno aeroporto, numa viagem oficial da sua equipa, pela qual se manteria por mais 5 anos.


Era um mundo maravilhoso, portanto. Como maravilhoso era o frondoso matagal que cobria as partes altas do maior dos empresários portugueses de então: Manuel Barbosa. Pese o ar esgazeado e a suspeita de que hoje jamais lhe compraríamos um carro usado no seu "stander" da berma de estrada, não se deixem enganar: este senhor foi o Jorge Mendes quando Jorge Mendes ainda não sabia que duas mamas podiam caber numa só. Manuel Barbosa e o seu impecável aspecto oleoso constituem por si só um notável pictograma, mas a pièce de resistance é o pormenor do sr. Aníbal lá atrás no mural do seu humilde escritório, como um Deus omnipresente.

Pois é, afinal nem tudo mudou desde então.

sábado, março 16, 2013

Estilo ao Alcance de Todos


As exportações estão na moda e a moda está nas exportações. Por todo o lado, a moda desportiva vintage portuguesa espalha charme, glamour e bom gosto. Atente-se no orgulho com que o laureado Brad Pitt enverga as malhas do Desportivo das Aves mid-90’s, com o vigoroso patrocínio Autoni. Pitt mostra que é possível exibir um grande estilo mesmo com as roupas normalmente associadas ao Prof. Neca.  Angelina sorri, confiante.


George Clooney é outra vedeta de Hollywood que não resiste ao encanto das vestimentas lusas. Nem mesmo ao sair das gravações do seu spot publicitário para a Nespresso se coíbe de mostrar ao mundo a sua predilecção pelo portuguesíssimo Café Delta e, consequentemente, pelo torrefacto equipamento do Campomaiorense, marca Tepa, um modelo muito contemporâneo. É provável que tamanho desaforo à Nespresso não caia bem junto dos mesmos, mas Pedro Morcela já se disponibilizou para prestar todo o apoio necessário a George Clooney caso haja algum stress.


No mundo da música, as estrelas tecem loas à qualidade da estamparia portuguesa, do techno à world music. Até os inoxidáveis Metallica desse maluco que é o James Hetfield sucumbiram perante o arrojo do equipamento Adidas do Estoril 1997-98, principalmente pelo fogoso patrocínio do Big Show Sic, que tantas e tão inesquecíveis tardes de divertimento popular e zoófilo nos proporcionou. A combinação de cores e temas pode parecer estranha. E, na realidade, é mesmo estranha.


Rodando a agulha para o lado da política, é com algum espanto que notamos que até nas latitudes mais improváveis se notam os efeitos do tsunami estilístico da antiga II Divisão de Honra. Soube-se agora, através de uma fuga informação privilegiada, que Kim Yong-il, esse caricatural líder coreano, apenas se permitia a quebrar o seu rígido protocolo de vestuário com as sóbrias camisolas patrocinadas pela Reflux do Penafiel 1995. Vermelho, com algumas pinceladas de negro e amarelo, cores bem socialistas. Ai de quem não sorrisse.


Quando Christine Lagarde, a habitualmente sóbria directora do temido FMI, precisa de dar mais cor ao seu discurso opta por trajar o jersey do União da Madeira 1994, patrocínio Prégaia. Não é uma escolha qualquer – como uma líder multi-regional, Lagarde percebe que a harmonia entre os vários povos é bem-vinda e, como tal, é perfeitamente lógico que se vista com o emblema dos anos 90 que mais se celebrizou pela coexistência relativamente pacífica de várias nacionalidades. Lagarde, aliás, até passa por sósia do Lepi actual.


Até Barack Obama, que dispensa apresentações, aprecia sentir o conforto da camisola esquisita do Boavista do início dos anos 90 nos seus momentos de lazer. O desporto pode ser outro, mas o impacto do patrocínio Vila Flor no axadrezado que foi um dia de Nogueira, um plácido Cristo no Bessa, é transversal a todos os desportos, credos, raças e culturas, para além de reforçar a imagem de proximidade do presidente com o povo. E Michelle Obama tem uma camisola com o patrocínio Teresinha, que usa para jogar às (primeiras-)damas.

No frio siberiano, Vladimir Putin caminha sem medo. Desafiante, implacável e sem pingo de sangue a correr-lhe nas veias, o touro russo exala uma aura de invencibilidade. Muito desse prestígio deve-se ao saudável equipamento do Alverca da sua belle-époque primodivisionária. A preferência de Putin pelo Alverca remonta aos tempos em que o seu compatriota Faizulin conduziu uma memorável missão de espionagem futebolística no Ribatejo – o joelho original de Mantorras está algures perdido no Kremlin, diz-se à boca cheia.
O traje também pode indiciar o estado de uma relação. Aqui vemos os famosos Robert Pattinson e Kristen Stewart, na sua fase aparentemente platónica. Por enquanto, era só sorrisos e  vaidade. Ele, com um modelo Paços de Ferreira – Moliday, de fabricante obscuro; ela, com as cores do seu inimigo figadal, o Freamunde – Capital do Móvel, marca Joma. Era um equilíbrio instável entre vampiros que só podia dar sangue. Como efectivamente deu.


Os proxenetas também não ficaram indiferentes à moda desportiva portuguesa. E em época de crise no consumo, incluindo o sexual, há que ser inovador. Agora, já é habitual encontrarmos meninas pelas bermas das estradas ostentando o equipamento do Moreirense com o patrocínio De Borla. Marketing agressivo? Publicidade enganosa? Fica ao seu critério... Mas nada melhor do que experimentar antes de formar a sua opinião.


Exemplo extremo do interesse pelo imaginário futebolístico do final de século é o demonstrado pelos detentores dos direitos do Superhomem. Eles adquiriram os direitos de imagem da mítica camisola vestida por Botende ao próprio guardião e a partir de agora o Superhomem terá dois fatos oficiais: o do costume e o de Botende. A alteração do catálogo provou-se um sucesso. Botende encheu-se de guita e o Superhomem ficou um pouco mais imune à kriptonite, devido às estranhas propriedades da camisola Saillev.


Para finalizar, uma despedida. O ex-papa Bento XVI não quis dizer adeus sem revelar a sua profunda gratidão a missionários tão benquistos no Vaticano, como Serifo, Constantino ou Cao, que, sob o manto Leça – Imoloc, faziam com que adversários, árbitros e público em geral rezassem pela sua sorte. O papa demissionário não podia deixar de reconhecer a força de espírito que aquele equipamento lhe deu nas horas mais difíceis, quando a fé parecia vacilar: a fé vacilava e, pumba!, lá vinha uma aparição de um Alfaia em cima de um Tozé a ceifar a fé por trás, reanimando-a. De uma forma brutal, é certo, mas aquilo de facto espevitava-a para a vida. É assim, ínvios são os caminhos religiosos. Uma vez prestada a homenagem, o seu coração pôde entrar mais aliviado no mosteiro, com a camisola Leça - Imoloc a voar por entre os fumos da Praça de São Pedro.

sexta-feira, março 08, 2013

Sob o Signo do Amuanço

Grupo Desportivo de Chaves: Unidos. Determinados. Amuados.
Esta poderia ser a tagline da época 1994/1995 para lá do Marão.


imagem gentilmente gamada de gloriasdopassado.blogspot.com
J'aime Cerqueira e a sua crew de renegados, com o rebelde Zito à cabeça, demonstram claramente pouca vontade de posar defronte à invasiva lente ao soldo do diário "A Bola".
"Fuck mainstream magazines, man", afirmava Zito com desdém enquanto sacudia a incomodativa melena grunge defronte do olho direito."Fuck the pic, dudes. Let's show them that GD Chaves is no fuckin' sellout."
Porém, um Carvalhal na fase decadente de tão ilustre carreira discordava veementemente com o angolano, pois já piscava o olho ao "establishment" tendo em vista um futuro lugar como Mijter:
- "Parem de se comportar como crianças. Temos responsabilidades para com os simpáticos leitores do periódico desportivo."
"You sold out, man!", contestava um enérgico Edinho de lágrima ao canto do olho. "You used to be cool.", murmurava desapontado de terço ao (liliputiano) pescoço. Amarildo confortava o avançado oferecendo-lhe um ombro amigo para chorar.
"Calma pequenino, tudo vai correr bem..." sussurrava o defesa no calor humano de um abraço fraterno.
- "Fuckin' suits, man! Fuckin' suits!", berrava um agastado Lino em defesa de Edinho, atirando uma rodela de chouriço ao bigode de Manuel Correia, perante o choque do balneário.
Correia, fazendo gala da sua característica fleuma britânica, não reagiu, limitando-se a sacudir o impecável moustache e a penteá-lo cuidadosamente com o pequeno pente que trazia sempre guardado na meia direita.
Nesta fase, a equipa já se encontrava claramente dividida, com a facção anti-establishment composta por Edinho, Zito, Lino, Amarildo e Cerqueira a ocupar o lado esquerdo do balneário.
Zito, Edinho e J'aime : "success sucks."
Manuel Correia, Palexandre, Agostinho e Carvalhal defendiam o forte do lado oposto.
Toniño, por outro lado, encontrava-se momentaneamente nas latrinas: "Hablem baixo qué estoy cagando!", sugeria suavemente o espanhol com costumeira classe. O centro-campista sofria frequentemente de desarranjo intestinal nos momentos que antecediam o franzir de sobrolho para as fotos de plantel de início de época.
O luso-parisiense Agostinho, fã número um de Dino Meira, encontrava-se agastado. "Nous avons que resolver cette situação, dommage.", "Je tiens que tirer la foto para mostrar a minha familie à Paris de France que estou realment jogando ballon au Portugal."
"You're fucked up, man! All that thirst for fame, man. You disgust me.", murmurava um decepcionado Zito. "Fuckin' fame, man...faggots."
Nisto, voa uma desprezível beata na direcção das chuteiras de Carvalhal, cortesia de J'aime Cerqueira: "This used to be about the music, man. All about the music..."
Sentindo-se desrespeitado, Carvalhal ensaia um potente banano à bela face de Cerqueira. Os ânimos inflamam-se e os jogadores envolvem-se numa salada russa de bordoadas, sopapos, milhos e bofetões  tudo bem regado com azeite q.b.
O caos desenrola-se perante o olhar horrorizado do senhor velhote anafado de t-shirt branca, roupeiro do GD Chaves desde a primeira Revolução Industrial:
- "E as crianças!! Alguém pense nas crianças!!"
Caos.
Bigode do Manuel Correia.
Revolta.
Desordem.
Chouriço.
Choro.
Desespero.
Resignação.
A poeira assenta. O mórbido silencio pós-batalha é apenas quebrado por tímidos gemidos de dor. A carnificina é total, corpos jazem quentes e mal tratados no frio chão do balneário.
J'aime Cerqueira leva a mão à monocelha, como se estivesse a certificar-se de que tudo está bem no Mundo.
A "cerquelha" ainda estava viva e de saúde. Longa vida à "cerquelha".
Agostinho ergue-se lentamente, sacudindo o equipamento e beijando o galhardete de "Le Portugal" que traz sempre na cueca, não vá ele marcar um golo e ter a oportunidade de mostrá-lo ao mundo.
Palexandre ajuda Manuel Correia a levantar-se, desempoeirando-lhe o bigode.
Edinho, Amarildo e Lino demonstram invejável entreajuda, amparando-se mutuamente.
yes they do, Zito. yes they do.
Zito, esse, mantém-se sentado no chão do balneário, cabisbaixo. Vai abanando lentamente a cabeça enquanto acende um reflectivo charro com o sempre fiel isqueiro ofertado pelas Tintas Europa.
- "What happened to us, man? we used to be like brothers..."
Subitamente, um estrondo ecoa pelo espaço  É Toniño, fechando vigorosamente a porta da latrina. Parece aliviado e traz um sorriso nos lábios, quando se depara com o triste cenário de carnificina fratricida.
"Ostia, Tios! Qué pasó? Bamos embuera, ahora qué já liberté la tripa, ya podemos ir tirar la fueto, carajo!"
Zito levanta lentamente a cabeça e olha de esguelha para os seus comparsas, procurando um fugaz sinal de anuência.
O choroso senhor velhote de t-shirt branca, sentindo que está perante um momento crucial da trama, implora esperançado:
- "E as crianças!! Alguém pense nas crianças!!"
Lino, coçando a sua carapinha arruivada, toma também consciência da importância do momento:
- "Fuck it man, let's do it.", diz entre-dentes enquanto cospe subtilmente para o chão o palito que tinha na boca.
Amarildo partilha o mesmo sentimento, olhos-nos-olhos com Zito, ajudando-o a levantar-se. Palmadinha nas costas.
- "Bora, caralho. que sa f****."
Abraçados, os contestatários aproximam-se solenemente de Manuel Correia e seus sequazes:
- "Fuck it. One last dance...for old times' sake. But corporate magazines still suck."
Com o sol matinal a acariciar suavemente os moídos rostos, os flavienses dirigem-se pesarosos para o túnel de acesso ao tapete verde. Dead men walking, juntos pela ultima vez.
Infelizmente, o ambiente já não era o melhor. Claramente contrariados, os jogadores cruzam os braços e rangem os dentes.
Os jogadores, esses, sabiam que nada voltaria a ser como dantes. Os dias de treinos em prados floridos, carregados de beijinhos, algodão doce, compotas caseiras e afagamento dos caracóis do Edinho já era coisa do passado.
Para a posteridade fica a primeira foto de plantel da História do Futebol sob o signo do amuanço.
Semblantes carregados, braços cruzados. Olhares vagos e bigodes tristes.
Desprezo pela lente e pelos leitores.
À esquerda, o inocente sorriso de um anónimo adjunto disfarçado de palhaço (na verdade, é apenas o hediondo equipamento de treino da turma transmontana) é um falso oásis de esperança no meio de um deserto árido e deprimente.
"já conheci melhores dias."
No canto inferior direito, o senhor velhote anafado de t-shirt branca chora copiosamente, contemplando suicídio.
As crianças, alguém pensou nas crianças???

domingo, fevereiro 24, 2013

Mascotes


Os animais sempre exerceram um inegável fascínio sobre os humanos. Fosse pela fidelidade canina, pela independência felina, pela polivalência dos equídeos, ora a auxiliarem-nos com a sua força, ora substituindo os seus colegas bovinos numa lasanha, pela forma destemida como o cágado se lança pelo remoinho da retrete esgoto adentro, pela graciosidade vertical com que o pombo escapa in-extremis ao embate do pára-choques ou pela forma suculenta como um galináceo aparece no nosso prato, depois de nos ter melgado o juízo com o seu cacarejar demasiado matutino para quem pretendia uma manhã de descanso depois da ressaca da noite anterior. Obviamente, tal afecto, tão arreigado nas raízes que identificam o nosso povo, não poderia passar incólume aos clubes de futebol, eles próprios expressão de um sentimento sócio-cultural de um grupo de indivíduos.
É certo que os clubes de futebol procuram animais com conotações “nobres”, sejam eles leões, águias, dragões, tigres, galos, D. Afonso Henriques, golfinhos ou castores (se pensarmos que em inglês “castor” significa “beaver” e “beaver” é, em calão, uma coisa de dignidade duvidosa, mas ainda assim muito procurada pelos homens com as hormonas à flor da pele). Mas há sempre uma ou outra excepção à regra. E é isso que pretendemos debater.



Lá para os lados de Guimarães, os Caçadores das Taipas adoptaram como mascote um porco. Bom, em rigor, é um javali. Perante tão insólita mascote, várias perguntas nos assaltam: como se tratarão os indefectíveis adeptos dos Caçadores das Taipas? “Grandes porcos”? Terão claques com nomes como “Ultras Recos” ou “Torcida Suína”? Quando se referem a “arbitragens armadilhadas” será que os devemos tomar no sentido literal da expressão? Como reagirão perante um jogo Mealhada – Caçadores das Taipas? Será que o Caneira e o Obélix alguma vez foram declarados cidadãos eméritos das Taipas?

Se formos justos, pese embora a pouca ortodoxia, até há alguma razoabilidade na escolha de um porco selvagem, visto ser um clube de caçadores. E todos sabemos que o que não faltam são porcos por aí à solta, pelo que esta mascote até é capaz de granjear alguma simpatia. O Maniche, por exemplo, poderá rever-se e achar engraçado.

Maniche tentou a sua sorte como Bebop nas Tartarugas Ninja, mas apenas gravou o episódio piloto – perdendo assim a hipótese de encarnar uma das mais carismáticas personagens secundárias das anos 90.
E depois há aqueles clubes que vão mesmo ao âmago da portugalidade e escolhem para sua mascote… exactamente, um pinguim. Acontece em Santa Comba Dão, uma terra que carrega o estigma de ter dado berço ao Oliveira mais influente do último século (e não estamos a falar da família do ex-seleccionador nacional). Um pinguim, meus senhores. Uma ideia brilhante. Até nos admiramos de Carregal do Sal não ter designado um urso polar ou de Mortágua não ter optado por um canguru, mas tamanha verve ocorreu apenas em Santa Comba Dão. Se reflectirmos bem sobre a Beira Alta, na exuberância beirã, no virtuosismo do seu futebol, no espírito estóico das suas gentes, o que nos vem à mente? Se percorrermos as ruas graníticas de Santa Comba Dão, se entrarmos nos seus cafés, se fizermos cócegas ao seu pelourinho, se escavarmos as suas fecundas terras à procura de minhocas, se espreitarmos para os ramos das suas frondosas árvores, se perscrutarmos o azul infinito do seu glorioso firmamento, o que será provável encontrar? A resposta para todas estas questões é exactamente essa que vocês estão a pensar: um pinguim.

Se o pinguim terá jeito para ser associado a um clube de futebol tão longe da Antárctica é por certo discutível. Mas já cá houve pelo menos um pinguim a jogar à bola. Digam agora de vossa justiça.

domingo, dezembro 30, 2012

Drissíadas 2013

Driss é um party-animal. Não há dúvidas quanto a isso. Ele quer lá saber da crise, dos impostos, das privatizações e dessa trampa toda – because Driss just wanna rock on! E cá estamos nós, à porta de mais um réveillon, a altura do ano em que Driss larga os tapetes e os ramadões para curtir que nem uma besta.
Este ano, Driss orquestrou um mega-evento: as chamadas “Drissíadas”, um acontecimento épico que se orgulha de receber os contributos de personalidades dos mais variados quadrantes. Se Driss também já é tradição, este ano Driss vai presentear-nos com a justaposição. So check this out.








Esperemos que vocês também se divirtam com as Drissíadas e deixamos os nossos sinceros votos, em nome de toda a Administração desta vossa SAD, para que 2013 possa ser tão bom quanto o pior de 2012. Ou melhor, que o pior de 2013 seja tão mau quanto o melhor de 2012. Isto é, que o pior de 2012 nunca mais se repita, a não ser que seja o pior do melhor de 2013. Quer dizer… nah, que se lixe: safem-se de 2013 da melhor forma que puderem.

domingo, dezembro 23, 2012

Natal É Rudi (E Mais Qualquer Coisinha)



Natal é tradição. E a tradição de Natal é mais que um bolo-Rodolfo-Reis, é mais que uma árvore de Natal com embrulhos ao seu redor, é mais que as capas ridículas dos jornais desportivos. Tradição de Natal é Rudi.

Rudi, que por causa do seu belo penteado à tigela, ganhou a audição para novo vocalista dos Weezer, batendo Medane aos pontos. “Uma questão de atitude”, confidenciou-nos o management da banda. Portanto, a tradição é Rudi mas Rudi desafia a tradição. Já estou a ver “The Sweater Song” cantada em transmontano com sotaque balcânico e um clip cheio de alheiras.


Natal é Paixão. Natal é Hamori. Afinal o Natal é o quê?

O Natal é o que nós quisermos que seja, sempre quando quisermos que seja. Porém, a gente costuma dizer que primeiro vem o Paixão e só depois chega o Hamori. O Paixão é uma força assolapada que nos ataca de pitons em riste, pleno de rebaldaria e fogoso com os seus cabelos insubmissos que mais parecem uma hidra de sete cabeças. Já o Hamori chega de mansinho, instala-se subrepticiamente no nosso âmago, é discreto e lavadinho como se acabasse de sair do banho, mas não duvideis do seu forte pontapé. O Paixão passa bem sem o Hamori mas, não raras vezes, o Hamori começa após um tackle eficiente do Paixão. E por isso é que dissemos que primeiro vem o Paixão e só depois vem o Hamori. O que nem sempre é verdade, mesmo quando tudo nos leva a pensar o contrário.


Por exemplo, na situação acima, o carro nº1 conduzido pelo Paixão, um Peugeot 206 verde com aileron traseiro e luzinhas roxas a debruarem as suas partes baixas, avança maneiro pela estrada fora, com o stereo a debitar inanidades sonoras indiferente a tudo ao seu redor; está confiante que terá prioridade sobre o Hamori, a vetusta espécie de furgão branco com o nº2, que se aproxima vagarosamente do cruzamento pela sua esquerda. Contudo, há um ríspido sinal STOP que faz com que Paixão trave bruscamente, eventualmente com o auxílio do travão de mão, de modo a evitar as sempre lamentáveis colisões mortais entre Paixão e Hamori – verdadeiras visões doentias onde a amálgama de despojos deixa o espectador confuso sobre o que seria aquilo realmente, se Paixão ou Hamori, com resultados por vezes devastadores para a saúde mental dos próprios transeuntes. “Maldição!”, brama Paixão, enquanto o Hamori, tranquilamente, avança a sua inexorável marcha.

E se é João Catatau a validar esta situação, nós nada podemos argumentar.



Natal é magia. Só isso explica que Zeferino Boal esteja na calha para ganhar a votação que por ora se encontra no canto superior direito deste vosso humilde blogue. Será a primeira votação que Boal ganhará na sua vida, mesmo considerando as votações para delegado de turma e para administrador de condomínio. A boa estrela que guiou os Reis Magos está também a ajudar o nosso dedicado Zeferino a encontrar o seu caminho. O papa pode dizer adeus à vaca e ao burro no presépio, mas não pode fazer nada quanto à força mística de Zeferino. No Natal canta-se pela glória de Boal.

Um feliz e cromífluo Natal a todo o povo da bola.
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